Publicado: 11 marco 2026
Historia da Senda do Urso: da ferrovia mineira de 1884 a via verde
Quando pedala num dos tuneis da Senda do Urso, nao esta a percorrer um caminho qualquer. Esta a rodar sobre o mesmo tracado que, durante quase oitenta anos, locomotivas carregadas de carvao e ferro percorreram para ligar os vales do Trubia a industria asturiana. Esta e a historia de como uma via mineira abandonada se tornou na via verde mais popular das Asturias.
Cronologia: 140 anos em 8 datas
A visao de Gabriel Hein
Um engenheiro belga projeta uma ferrovia das Asturias ate a Meseta. Um magnata local bloqueia o plano: apenas uma via mineira de bitola estreita e aprovada.
A linha e inaugurada
Inaugura-se a primeira ferrovia de bitola 750 mm de Espanha: Trubia-Santa Marina de Quiros. 30 km, 12 tuneis, 7 pontes.
Ramal de Teverga
E construido o ramal Santianes-Perihuela (Proaza), criando a bifurcacao em Y que hoje define a senda.
Encerramento da ferrovia
A 15 de outubro de 1963 circula o ultimo comboio. O transporte rodoviario venceu.
Paca e Tola resgatadas
Cacadores furtivos matam uma ursa nas montanhas do sudoeste asturiano. As suas duas crias, Paca e Tola, sao resgatadas e tornam-se simbolo da conservacao do urso pardo cantabrico.
Comeca a transformacao
Um grupo de ciclistas de Gijon propoe ao Principado converter a via abandonada em senda verde. As obras comecam sob o nome Senda Verde de los Valles del Trubia.
Primeiro trecho aberto
Em maio abre Tunon-Proaza (~6 km), o primeiro trecho transitavel. A resposta do publico e imediata.
Senda completa
Abrem os trechos Proaza-Entrago (1996) e Caranga-Valdemurio (1999). A Senda do Urso atinge o seu tracado atual.
A ferrovia mineira
Tudo comecou com um sonho grande demais. Em 1860, o engenheiro belga Gabriel Hein projetou uma ferrovia que cruzaria a Cordilheira Cantabrica pelo Puerto de Ventana para ligar as Asturias a Meseta. Mas Bernardo Tiburcio Terrero, magnata local, nao queria fumo de locomotiva sobre as suas propriedades e bloqueou a linha convencional. A Hein so aprovaram uma via estreita de 750 mm com um objetivo mais modesto: transportar carvao e minerio de ferro dos vales do Trubia ate a Fabrica de Armas de Trubia e os altos-fornos da costa.
O resultado foi, sem se saber, um marco ferroviario. Em 1884 inaugurou-se a primeira ferrovia de bitola 750 mm de toda a Espanha: cerca de 30 km entre Trubia e Santa Marina de Quiros, com 12 tuneis e 7 pontes abertos num terreno impossivel de desfiladeiros calcarios e rios encaixados.
Em 1902 adicionou-se o ramal de Teverga, de Santianes ate Perihuela (Proaza), criando a forma de Y que hoje se reconhece no mapa da senda. Durante sessenta anos, o comboio foi o pulso destes vales: exportava carvao, trazia mantimentos e ligava aldeias que, de outro modo, ficavam isoladas cada inverno.
A 15 de outubro de 1963, o ultimo comboio percorreu a linha. A estrada, mais flexivel e barata, tinha vencido. Os carris foram levantados, os tuneis fechados e as pontes comecaram a encher-se de vegetacao. A via ficou morta durante quase tres decadas.
De via morta a via verde
A segunda vida desta via comecou com um grupo de ciclistas de Gijon. No final dos anos 80, pedalavam por estradas secundarias quando se depararam com o antigo tracado ferroviario: plano, protegido do trafego e com uma paisagem espetacular. Propuseram ao Principado das Asturias converte-lo em senda verde.
A ideia vingou. Em 1991 comecaram as obras sob o nome oficial de Senda Verde de los Valles del Trubia, impulsionadas pelo Governo do Principado e pela Mancomunidade dos Vales do Trubia. O projeto respeitava o tracado original: os tuneis foram mantidos, as pontes reabilitadas e o piso pavimentado para bicicletas e peoes.
Em maio de 1995 inaugurou-se o primeiro trecho, Tunon-Proaza (~6 km), e a resposta foi imediata. Um ano depois abriu o braco de Teverga (Proaza-Entrago) e em 1999 completou-se o braco de Quiros (Caranga-Valdemurio). A senda atingiu o seu tracado atual: mais de 30 km com dois ramais a partir do mesmo ponto.
Os ursos que deram nome a senda
Em 1989, cacadores furtivos mataram uma ursa nas montanhas do sudoeste asturiano. As suas duas crias, Paca e Tola, foram resgatadas e acolhidas pela Fundacion Oso de Asturias (FOA), criada oficialmente a 30 de outubro de 1992. Em 1996, as ursas foram transferidas para um cercado construido de proposito em Monte Fernanchin, junto a senda, e tornaram-se o simbolo da conservacao do urso pardo cantabrico.
Tola morreu em janeiro de 2018, com 28-29 anos. Paca foi sacrificada a 10 de abril de 2025. Em dezembro de 2013 tinha sido resgatada Molina, uma cria encontrada sozinha, que hoje e a unica ursa parda cantabrica em cativeiro. Vive no cercado de Monte Fernanchin, visivel desde a senda entre Proaza e Tunon.
Os ursos transformaram a senda de rota ciclista em experiencia naturalistica. Parar no miradouro para observar Molina e, para muitos visitantes, o momento que mais recordam da viagem.
O que resta da ferrovia
A senda conserva a infraestrutura do antigo comboio como nenhum outro caminho nas Asturias. Mais de 20 tuneis continuam de pe (da linha principal e do ramal de Teverga), todos iluminados e transitaveis. 11 pontes reabilitadas cruzam o rio Trubia e os seus afluentes, algumas com a estrutura metalica original do seculo XIX.
O tracado atravessa os desfiladeiros de Penas Juntas e Valdecerezales, duas gargantas calcarias que so puderam ser superadas com tuneis e pontes em balanco. Hoje, esses trechos sao os mais fotografados de toda a rota.
E se quiser ver uma das maquinas que percorriam esta via, a locomotiva F.M. 102, construida em 1881 e a mais antiga de bitola 750 mm que se conserva em Espanha, esta conservada nas Asturias.
Perguntas frequentes
Quando foi construida a ferrovia da Senda do Urso?
A linha foi inaugurada em 1884 como via mineira de bitola 750 mm entre Trubia e Santa Marina de Quiros. Foi a primeira ferrovia de bitola 750 mm de Espanha.
Por que a ferrovia encerrou?
A ferrovia deixou de operar a 15 de outubro de 1963 porque nao conseguia competir com o transporte rodoviario, mais flexivel e barato.
De quem foi a ideia de converter a ferrovia em via verde?
Um grupo de ciclistas de Gijon propos a ideia ao Governo do Principado das Asturias no final dos anos 80. As obras comecaram em 1991 com apoio da Mancomunidade dos Vales do Trubia.
Restam vestigios da antiga ferrovia?
Sim. Conservam-se mais de 20 tuneis, 11 pontes reabilitadas e a locomotiva mais antiga de bitola 750 mm que se preserva em Espanha (F.M. 102, de 1881), conservada nas Asturias.
O que aconteceu com os ursos Paca e Tola?
Tola morreu em janeiro de 2018 e Paca foi sacrificada a 10 de abril de 2025. Molina, resgatada como cria em dezembro de 2013, e atualmente a unica ursa parda cantabrica em cativeiro e vive no cercado de Monte Fernanchin junto a senda.